segunda-feira, 10 de março de 2008

O que há em mim é sobretudo cansaço

O que há em mim é sobretudo cansaço
Não disto nem daquilo,
Nem sequer de tudo ou de nada:
Cansaço assim mesmo, ele mesmo,
Cansaço.

A subtileza das sensações inúteis,
As paixões violentas por coisa nenhuma,
Os amores intensos por o suposto alguém.
Essas coisas todas -
Essas e o que faz falta nelas eternamente -;
Tudo isso faz um cansaço,
Este cansaço,
Cansaço.

Há sem dúvida quem ame o infinito,
Há sem dúvida quem deseje o impossível,
Há sem dúvida quem não queira nada -
Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles:
Porque eu amo infinitamente o finito,
Porque eu desejo impossivelmente o possível,
Porque eu quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser,
Ou até se não puder ser...

E o resultado?
Para eles a vida vivida ou sonhada,
Para eles o sonho sonhado ou vivido,
Para eles a média entre tudo e nada, isto é, isto...
Para mim só um grande, um profundo,
E, ah com que felicidade infecundo, cansaço,
Um supremíssimo cansaço.
Íssimo, íssimo. íssimo,
Cansaço...

Álvaro de Campos

2 comentários:

seni disse...

Adoro Álvaro de Campos.
Esse poema é mesmo lindo :')

Beijinhos piquenos *

Mafalda disse...

Ah e tal, cansaço e mais não sei o quê...
Falta dizer que o poema foi fornecido por mim xD

Brincadeirinha, chefão.

Já sabes que gosto do poema. Ah, e tb gosto de ti (que remédio!)

Beijinhos*

se algum dia precisares... aqui estarei... se algum dia quiseres ir embora... não deixarei... se algum dia morrer... podes ter a certeza que te levarei no coração... *